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Professores de português

     Os professores de português necessitam de todos os professores interdisciplinares para o ensino e a prática da ciência e da arte do bem pensar, interpretar, falar e escrever. Tantos e tantos professores de outras disciplinas farpeiam os professores de português porque os alunos não sabem pensar, não sabem interpretar, não sabem falar e não sabem escrever. Ou, noutras palavras mais curtas e secas, que os alunos não sabem português. Professores de português são só os professores de português? Claro que não. São todos os professores, de todas as disciplinas, em todos os graus de ensino.

     Celso Pedro Luft, velho e saudoso professor de português em Porto Alegre, escreveu no Mundo das Palavras de 25 de setembro de 1977, domingo, no Correio do Povo, sobre quem são os professores de português. Nada mais justo e grandioso neste artigo do que transcrever, ao pé da letra, inclusive respeitando as negritas e os parágrafos principais em que ele, com peso magistral e atual, tratou deste assunto.

     “Professor de português? Professor de português é todo e qualquer professor. Quem ensina em língua portuguesa – não importa qual seja a matéria – é professor de português.

     Professor de Matemática, professor de História, professor de Ciências Sociais, professor de Geografia, professor de Química, professor de Biologia, professor de Física, professor de... (ponha aqui as matérias possíveis) – todos são professores de português.

     Todos os professores são co-responsáveis pela linguagem, pelo português de seus alunos. Não só pelo óbvio de ser o mestre um modelo para o discípulo, mas porque devem exercitar os alunos na linguagem específica da matéria. Todos os professores devem exigir trabalhos escritos dos alunos, orientando-os e aprimorando-os no domínio da linguagem especializada. Dominar uma disciplina ou ciência é dominar a linguagem respectiva. Saber Matemática é saber pensar, falar e escrever em termos matemáticos. Saber Química é dominar a linguagem química. E assim por diante. Tudo isso é questão de linguagem. No Brasil (e em Portugal), questão de português.

     Agora, entre nós, nas nossas escolas, todos cuidam de ser professores de português? Todos estão empenhados – profissionalmente empenhados – no aprimoramento do português dos alunos? Zelam todos pela ampliação do vocabulário (imprescindível à ampliação de conhecimentos), pelo fraseado claro e correto, pela elevação do nível de linguagem (imprescindível à elevação cultural), pela coerência e lógica dos enunciados orais ou escritos? Enfim: estão, todos os professores, empenhados na constante melhoria da linguagem portuguesa de seus alunos?

     Meus caros professores, não se queixem tão facilmente dos ou aos seus colegas professores de português. Ortografia, pontuação, gramática – isso vocês podem tranqüilamente exigir deles. Mas não se esqueçam nunca: no mais importante, no essencial da linguagem dos estudantes, todos e cada um dos professores estão visceralmente comprometidos.

     Nossas escolas estão no nível da linguagem dos estudantes que elas formam.”

     Quando todos os professores decidirem ser de verdade professores de português, o descalabro da linguagem da grande maioria dos alunos, inclusive da grande maioria dos universitários dos primeiros semestres, não será tão gritante e vergonhoso como no momento é. Todos os professores, uma vez que todos são professores de português, devem sentir-se autoconvocados para ensinar português aos seus alunos. Não lhes está restando, nesta década, em nenhuma escola, nem mesmo nas universidades, outra saída.

     E todos os alunos, de pequenos a grandes, sem exceção, neste mundo globalizado e competitivo, não mais podem fugir da obrigação de saber português. Todos os alunos, portanto, agora mais que antes, devem saber pensar, interpretar, falar e escrever mais e melhor a cada dia, a cada ano. Ou melhor ainda – devem saber pensar, interpretar, falar e escrever bem. Hoje mais que noutros tempos, esses atos comunicativos viraram nisto: saber ou morrer.


Artur Hamerski,
Professor na URI, IESA e Seminário Sagrada Família de Santo Ângelo.

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